O que começou com 32 barracas tornou-se um movimento que gera renda, fortalece famílias e devolve vida a um dos espaços mais tradicionais de Boa Vista
Todos os sábados, pouco antes do sol nascer, a Praça do Coreto, no Centro de Boa Vista (RR), começa a mudar de ritmo com as barracas tomando conta do lugar. Caixas são descarregadas, mesas montadas e produtos organizados.
O vai e vem de pessoas entre uma barraca e outra à procura de produtos ou de um simples café movimenta o local e traz esperança para empreendedoras, que veem a iniciativa como vitrine para expor e vender produtos.
Entre eles está Eliane Rocha, de 50 anos. Ao lado do marido e dos filhos, de 17 anos e de 11 anos, ela organiza os produtos naturais e alimentos que levará para vender durante a manhã. Para ela, a feira representa oportunidade de renda extra e de recomeço.
Paciente oncológica pela segunda vez, Eliane afirma que encontrou na feira um ambiente capaz de ajudá-la a enfrentar o tratamento com mais disposição. “A feira me permitiu cuidar da minha saúde mental, conhecer pessoas, trocar experiências, gerar renda, aprender coisas novas e acreditar mais em mim mesma”, disse.

Eliane Rocha vende lanches naturais na Feira do Coreto
Ela conta que toda a família participa da atividade. Além da renda extra, a experiência se transformou em uma forma de ensinar responsabilidade aos filhos e fortalecer os laços familiares. “Aqui eles aprendem sobre responsabilidade, além de possibilitar de obter lucro com o próprio trabalho honesto”, comenta.
Empreendedorismo feminino e o Impacto Econômico
Segundo dados do DataSebrae, o número de empreendimentos liderados por mulheres cresceu em Roraima, representando quase metade da economia formal. Os números revelam que 22.736 empresas ativas no estado estão sob gestão de mulheres, o equivalente a 44,3% do total de negócios formalizados.
A maior parte das empresas sob liderança feminina está concentrada nas categorias de menor porte. De acordo com os dados, das 22.736 empresas femininas registradas no estado, 10.005 são Microempreendedoras Individuais (MEI). Outras 8.734 estão classificadas como Microempresas.
“Isso significa que mais de 80% das empresas comandadas por mulheres no estado pertencem à base do sistema empresarial, formada por negócios pequenos, muitas vezes iniciados com investimento reduzido e estrutura enxuta”, destaca trecho da reportagem “Mulheres comandam 44,3% das empresas em Roraima e impulsionam crescimento de 35,5% em um ano”.
Complemento de Renda Familiar
Em muitos casos, empreender deixou de ser uma escolha e passou a ser uma alternativa para complementar a renda familiar ou conquistar maior autonomia financeira. A artesã Shirley Alves, de 52 anos, faz parte dessa realidade. Ela começou a empreender ainda na juventude, mas foi a participação em oficinas de capacitação que a incentivou a investir de forma mais estruturada no próprio negócio.

Para a artesã Shirley, a feira trouxe visibilidade e ampliou as vendas
Ao longo dos anos, Shirley aprimorou a produção de artesanatos, participou de editais e chegou a ser contemplada pela Lei Paulo Gustavo. Desde o início da Feira do Coreto, expõe seus produtos no local e viu o negócio ganhar novos horizontes. “A feira me possibilitou visibilidade. As pessoas veem mais o meu trabalho, fazem encomendas e as vendas aumentaram”, afirma.
Reconhecida com o Prêmio de Trajetória pelo trabalho desenvolvido no artesanato, ela considera a feira uma importante ferramenta para fortalecer o empreendimento. Atualmente, a renda da família é composta pelo trabalho do marido e pela comercialização das peças produzidas por ela.
Embora não seja a única fonte de sustento da casa, ela conta que o artesanato representa uma parcela significativa do orçamento familiar. “É um espaço onde consigo mostrar meu trabalho, conquistar clientes e complementar a renda da minha família”, comenta.
Novos Clientes
A experiência de Shirley não é um caso isolado. Para muitas empreendedoras, a Feira do Coreto funciona não apenas como espaço de comercialização, mas também como uma vitrine capaz de ampliar a rede de contatos e atrair novos consumidores.
É o caso de Socorro Guimarães, que produz e comercializa biscoitos caseiros amanteigados. Além das vendas realizadas em um ponto físico e pela internet, ela passou a expor os produtos na feira em busca de novos clientes e oportunidades de divulgação.
“O retorno é bom não somente em questão de dinheiro, mas também de network. Muitas pessoas podem não comprar naquele momento, mas depois lembram da gente porque nos viram no Coreto ou em alguma feira e acabam procurando nossos produtos”, afirma.
Socorro conta que decidiu participar da iniciativa assim que conheceu o movimento gerado pela Feira do Coreto e o perfil do público que frequenta o espaço. “Quando conheci a Feira e o público que ela traz, quis logo vir para cá. A experiência de vendas é sempre boa”, reforça.
Visibilidade e expansão
A visibilidade conquistada por meio da Feira do Coreto também impulsionou negócios que antes atuavam exclusivamente no ambiente digital. Desde fevereiro deste ano, Yasmim Guedes, junto com a irmã e a mãe, proprietárias da marca Delas Dry Fit, participa da feira em busca de maior aproximação com os clientes. Antes disso, as vendas eram realizadas apenas pela internet.
“Nossa intenção no começo era ter mais visibilidade, e conseguimos alcançar isso graças à participação aqui na Feira do Coreto. A nossa lucratividade aumentou e estamos perto de bater a meta do mês”, afirma. O contato direto com o público passou a influenciar inclusive as decisões do negócio. De acordo com a empreendedora, a demanda dos clientes estimula a busca constante por novos fornecedores e produtos de melhor qualidade.

As idealizadoras da Delas Dry Fit iniciaram a venda física na Feira do Coreto
“Isso também nos incentiva a procurar sempre um produto melhor, as melhores peças e os melhores fornecedores para trazer para cá. Os clientes já nos conhecem, nos seguem nas redes sociais e sabem que estamos na feira”, conta.
A confeiteira Ana Caroline Araújo, de 34 anos, é mae atípica, e também encontrou na Feira do Coreto uma oportunidade para ampliar a divulgação dos produtos e conquistar novos clientes. Há cerca de um mês participando da iniciativa, ela comercializa bolos simples, bolos confeitados e docinhos produzidos artesanalmente. Antes de ingressar na feira, as vendas eram realizadas principalmente de casa e pela internet.
Para ela, o contato direto com o público tem contribuído para fortalecer o negócio e aumentar a visibilidade dos produtos. “É maravilhoso. As pessoas conhecem mais o nosso trabalho, as encomendas aumentam e isso ajuda a ter uma renda extra para garantir mais qualidade de vida para a família”, afirma.

Ana Caroline, mãe atípica, vende bolos e sobremesas e já percebe mais visibilidade de seus produtos
A Feira do Coreto cresceu
A Feira do Coreto começou de forma modesta, reunindo 32 empreendedoras em novembro do ano passado. Sete meses depois, o espaço se consolidou como uma das principais vitrines do empreendedorismo local, atraindo mais de 200 empreendedoras todos os sábados, das 9h às 14h.
Entre as barracas, é possível encontrar artesanato, gastronomia, produtos orgânicos, cosméticos, semijoias, itens geek, livros e uma variedade de produtos desenvolvidos por pequenos negócios locais.
“A iniciativa surgiu a partir da percepção de que muitas mulheres empreendedoras produziam em casa e enfrentavam dificuldades para divulgar e comercializar seus produtos. A proposta foi criar um espaço coletivo que ampliasse a visibilidade desses negócios, facilitasse o acesso a clientes e contribuísse para a geração de renda”, explica a coordenadora da Feira, Scyla Maria.
Para isso, a Praça do Coreto foi escolhida como ponto estratégico. Localizada em uma área histórica e de grande circulação no Centro de Boa Vista, ela oferecia o cenário ideal para aproximar empreendedores e consumidores, ao mesmo tempo em que contribuía para a ocupação e revitalização do espaço público.
Uma Praça mais viva, de muitas cores, sons e sabores
Além dos impactos econômicos, a Feira do Coreto também contribuiu para transformar a dinâmica da Praça do Coreto, no Centro da Capital de Roraima. O espaço reúne não só empreendedoras, mas artistas e famílias que buscam um ambiente que combine comércio, lazer e manifestações culturais.
Para o jornalista e artista Sidartha Brasil, a iniciativa resgata a relação da população com uma área histórica da cidade e fortalece a identidade cultural local. “Essa feira é maravilhosa. Esse local é lindo e toda essa proposta foi montada com muito carinho. Ela proporciona momentos de prazer e de reviver situações que aconteceram no passado cultural da nossa cidade”, relembra.
Segundo ele, a programação artística e a diversidade de produtos ajudam a criar uma experiência que vai além das compras. “Toda semana tem um artista diferente tocando. Você tem uma mistura de cores, sabores e visuais que fazem a gente reviver o centro da cidade de uma forma muito gostosa.”
Sidartha destaca ainda o papel da feira no fortalecimento da economia criativa e na valorização dos pequenos produtores locais. “Essa economia criativa proporcionada aqui é muito importante porque você tem acesso a produtos que normalmente não encontra em outros lugares. São produtos direto do campo, alimentos orgânicos, artesanato, gastronomia e muitas outras opções.”
Para ele, o sucesso da iniciativa está justamente na diversidade de experiências oferecidas ao público. “Aí você vem, troca uma roupa, compra uma figurinha pro filho, enfim, essa mistura cultural, esse caldeirão cultural. Como artista e filho desta terra, eu indico essa feira para qualquer pessoa”, reforça.
Por: Marta Gardênia (DRT/RR 502 ) e Ozieli Ferreira (MTB/458/RR)







